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Por que essa obra causou tanta polêmica?

No final do século XIX, um quadro pintado pela artista holandesa Marie Heijermans foi considerado ofensivo pelo rei da Bélgica, o quadro foi imediatamente censurado. Trinta anos depois, foi censurado novamente e levado para o depósito do museu sob a alegação de “falta de espaço”. Do que esse quadro tratava? Por que era ofensivo? Por que guardá-lo no depósito, longe da vista do público?

Marie Heijermans

Por que obras de arte são censuradas?

Sempre que descubro que uma obra foi censurada, na época que for, ela imediatamente ganha a minha curiosidade. A primeira coisa que penso é “por que?” me interesso pelos motivos que fizeram com que ela fosse censurada. Se alguém acha que aquilo não deveria ser visto, qual é a justificativa? O que aquela obra diz ou mostra que chegou a ser considerado ofensivo? Penso muito nas sensações que ela despertou para tal decisão.

Algumas vezes vemos que as obras de arte foram censuradas por razões políticas, porque os artistas que as criaram transmitiam através delas uma mensagem que incomodava determinados governos e grupos sociais. Esse é geralmente o motivo. Mas nem sempre, às vezes uma obra é censurada por motivos que não têm a ver com a política, como pode ser a religião, ou temas que afetam a moralidade e o comportamento.

A censura é um reflexo dos medos e tensões de uma época e/ou de um grupo social que tenta impedir que os discursos e comportamentos que são diferentes aos seus se propaguem na sociedade, acreditando assim poderem evitar mudanças sociais. Tudo isso surge de um grande medo às mudanças por parte daqueles que não entendem que é a impermanência que rege o mundo e a vida.

Vítima da Miséria

Pois bem, há alguns meses lendo sobre um grupo de artistas descobri uma pintura que foi muito criticada no seu tempo, final do século XIX, chegando inclusive a ser censurada duas vezes. O quadro se chama Vítima da miséria, e foi pintado pela artista holandesa Marie Heijermans. Esta obra é considerada a mais marcante da carreira da artista. É uma obra associada a temas sociais, o que demonstra um compromisso artístico que poderíamos até mesmo chamar de engajamento, muitas vezes controverso, em retratar as condições de vida difíceis.

Quando vi o quadro, num primeiro momento confesso que não entendi o motivo da censura, apesar de ver claramente que se tratava de uma obra de tema social, eu não vi nela nenhum conteúdo político ou religioso que pudesse ter despertado a ira de algum governo ou religião, também não encontrei nada que pudesse sugerir um ataque à moral. E só então percebi que eu estava olhando com os olhos de uma pessoa que está vivendo no século XXI, e que provavelmente o que chocava há mais ou menos dois séculos atrás, já não nos parece chocante ou absurdo hoje. Foi então que tomei a decisão de fechar os olhos para que ao abri-los eu pudesse observar novamente, tendo em conta a época em que foi pintada e onde ela foi exibida. Contexto é tudo.

Victime de la misère de Marie Heijermans (coleção do Museu Stedelijk)

Esta é a obra. Nela vemos no primeiro plano uma mulher nua, sentada ao lado de uma cama vazia, desfeita. Em frente da cama e próximo à mulher vemos uma cadeira com algumas roupas e algumas cédulas. Provavelmente o pagamento que ela recebeu pelo seus serviços. E no fundo do quadro, um homem de costas, terminando de se vestir para sair, o cliente. Vemos que nesta obra Heijermans trata o tema da prostituição. Mas ela não se limita a simplesmente mostrar uma cena dessa realidade, ela traz nos detalhes que compõem a obra informações de denúncia social.

A denúncia está nos detalhes

Observemos novamente a obra com atenção. Toda a informação que precisamos para encontrar o que a artista quer denunciar está aí e de maneira explícita. Ela não quer erros na compreensão do quadro. Se analisamos o ambiente da obra, o espaço em si, vemos que se trata de um quarto pequeno, com poucos moveis, e ainda menos objetos. Um quarto simples, não somente sem luxos, mas um quarto pobre. Se agora dirigimos nossa atenção aos personagens, o personagem feminino da obra é uma jovem. Uma jovem de classe social baixa, nua e sentada ao lado de uma cama desfeita, isso já é detalhe suficiente para pensarmos que ela é uma prostituta, mas a artista não quer deixar nenhuma margem para interpretações diferentes, então bem próximo do leito, em uma cadeira, junto a algumas roupas, vemos dinheiro. Um dinheiro que não teria nenhum outro motivo para estar ali além de ser o pagamento por um serviço.

E sim, para a época, tudo isso já seria motivo de escândalo. Até aquele momento, o nu feminino era comum em determinados contextos, elas eram deusas, ninfas, jovens que se mostravam em poses sedutoras e que permitiam ao observador masculino fantasiar, e nem precisamos falar de que todas eram pintadas por homens. Este quadro de Heijermans foi pintado nos últimos anos do século XIX (c.1897), devemos lembrar que somente trinta anos antes, na década de 1860, dois quadros geraram uma grande polêmica em Paris pela forma como apresentaram o nu feminino, Le déjouner sur l’herbe e Olympia. O nu feminino fora daqueles contextos pré-estabelecido, não somente não era aceito, era considerado imoral, um ataque, uma ofensa aos bons costumes.

Em Vítima da Miséria, o fato de apresentar o nu feminino numa prostituta já seria motivo suficiente para uma polêmica, mas a artista foi além e derrubou uma outra barreira. Observemos agora o outro personagem que aparece no quadro. Ao fundo do quadro vemos um personagem masculino terminando de se arrumar para sair. Apesar de que aparece retratado de costas, percebemos que se trata de um homem maduro, muito mais velho do que a moça sentada ao lado da cama. Ele aparece já vestido, camisa branca, colete preto, por esses pequenos detalhes da indumentária podemos deduzir que ele pertence a uma classe bem diferente da dela.

Ao juntarmos todos esses detalhes, entendemos bem o que a artista queria denunciar aqui. Através desse quadro ela nos deixa claro que a situação precária e miserável das jovens que precisavam se prostituir para sobreviver era criada pelas mesmas pessoas que as marginavam e ignoravam se prostituírem (infelizmente a situação não mudou muito até hoje). O mais interessante para mim, é que além da ousadia de pintar esse quadro-denúncia, a artista põe um título que não permite você interpretar de outra maneira, que não nos permite ver essa jovem como outra coisa a não ser como uma vítima.

Censurada duas vezes

A obra foi exibida pela primeira vez em 1897, na Exposição Universal de Bruxelas, ficando exposta por um mês, mas logo após a visita do rei da Bélgica à exposição foi considerada ofensiva e removida imediatamente. Heijermans tentou forçar a sua reintegração por meio dos tribunais, mas todos os seus esforços foram em vão. Além disso, tanto a imprensa belga como a holandesa condenaram as suas ações. Somente o jornalista Jan de Roode a defendeu no jornal Het Volksdagblad.

Mais tarde, nas décadas de 1920 e 1930, uma nova polêmica surgiu em torno da obra que tinha sido adquirida por Amsterdã para o Museu Stedelijk, mas foi condenada pelos críticos. Eles alegavam que com a compra deste quadro os vereadores social-democratas estavam fazendo um uso indevido do dinheiro dos contribuintes. Depois disso a obra foi relegada ao depósito a pedido do vereador do SDAP, Boekman, sob a alegação de “falta de espaço”.

Enfim visibilidade

Em 1999-2000, o quadro foi exibido em Antuérpia e Arnhem na exposição sobre artistas mulheres Cada Uma Sua Motivação. E em 2002, foi um dos destaques da exposição Amor à venda: quatro séculos de prostituição em Amsterdã no Museu de Amsterdã.  E em 2014 foi exibida novamente, desta vez no Stedelijk, na exposição Homens por Mulheres, 5 Séculos de Arte.

Curiosidades :

  • Esta obra ficou conhecida não somente por ter sido censurada duas vezes, mas pelo seu conteúdo social que expõe a pobreza e a prostituição.
  • Durante muito tempo a obra foi considerada vulgar.

Referências:


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